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Saudação ao Sol: Passo a Passo, Benefícios e Contraindicações

Por Leandro Castello Branco ·

Saudação ao Sol: Passo a Passo, Benefícios e Contraindicações
Saudação ao Sol: Passo a Passo, Benefícios e Contraindicações
Imagem: Leeloo The First (licença Pexels, Openverse)

Você chega na aula, o professor fala “agora, saudação ao sol!” e vem aquela sequência de doze posturas que todo mundo faz de olho fechado, menos você, que ainda tá contando nos dedos qual perna vai pra trás primeiro. Calma, cocada! A gente já vai chegar lá. Essa dúvida é tão comum que resolvi organizar aqui, com calma, a saudação ao sol passo a passo inteira: de onde ela vem, como sincronizar cada postura com a respiração, quantas vezes praticar e quem precisa pisar no freio antes de sair rolando pelo tapete sozinha.

O que é a Saudação ao Sol (Surya Namaskar)?

Em sânscrito, “surya” quer dizer sol e “namaskar” é reverência, saudação — a mesma raiz do “namastê” que todo mundo já ouviu. Então Surya Namaskar é, literalmente, uma saudação ao sol: uma sequência de posturas encadeadas, uma emendada na outra pela respiração, sem pausa entre elas.

Aqui já aviso uma coisa, porque prefiro conhecer bem minhas fontes do que repetir o que “todo mundo fala por aí”: reverenciar o sol nascente é, sim, um gesto antigo dentro da tradição védica. Mas essa coreografia específica de doze posturas, encadeada exatamente do jeito que a gente pratica hoje, é bem mais recente do que a maioria dos professores admite em aula — e a fonte dessa sistematização tem nome e data: o livro The Ten-Point Way to Health, de 1928, escrito pelo Rajah de Aundh (Bhawanrao Shriniwasrao Pant Pratinidhi). O próprio autor reconhecia que a saudação ao sol era um gesto antigo, de raiz védica, dedicado a Surya — mas o foco do livro dele era outro: saúde física, disposição, exercício, não devoção. Foi essa sequência, publicada e divulgada por ele, que depois se aproximou da prática de yoga em Mysore, onde Tirumalai Krishnamacharya dava aula literalmente na porta ao lado de onde se ensinava a Surya Namaskar do Rajah de Aundh, dentro do palácio. A saudação ao sol que a gente pratica hoje em cima do tapetinho deve muito a essa combinação: o livro do Rajah de Aundh, o momento nacionalista indiano do início do século 20 (que valorizava exercício físico como parte de um projeto de fortalecer o corpo da nação), e Krishnamacharya integrando essa sequência ao vocabulário do yoga postural moderno. E tudo bem: o valor da prática não depende da idade dela — só prefiro te contar a história real, não a lenda de tapete.

Vale um aviso antes de eu descrever o passo a passo: a sequência de 12 posturas que eu vou te mostrar aqui é uma entre várias variações que circulam por aí — cada escola e cada professor tem a sua própria versão, geralmente próxima, mas nem sempre idêntica. O Ashtanga Vinyasa, por exemplo, usa uma sequência bem diferente, que eu explico mais abaixo, na seção sobre a diferença entre Saudação A e B.

1. Pranamasana — a postura de oração

Em pé, na ponta do tapete, pés juntos ou levemente afastados, palmas das mãos unidas na frente do peito. Respiração neutra, só chegando. (“Pranam” é reverência, saudação; “asana” é postura — daí o nome.) É o momento de “zerar o cronômetro” antes de começar. (Vale lembrar: essa abertura em Pranamasana é da versão clássica de 12 posturas. No Ashtanga Vinyasa, a sequência começa diferente — em Tadasana/Samasthitihi, não em Pranamasana. Mais detalhes na seção de diferenças A/B, mais abaixo.)

2. Hasta Uttanasana — braços para o céu

Inspirando, os braços sobem esticados e o corpo se estende levemente para trás, olhando para as mãos. (“Hasta” é mão, braço; “uttana” é estendido, es

ticado para cima.) Não é para “quebrar” a lombar — a curva vem de leve, distribuída pela coluna toda.

3. Uttanasana — a dobra para frente

Expirando, o tronco desce e dobra sobre as pernas, mãos buscando o chão ao lado dos pés (ou nas canelas, sem drama, se a flexibilidade ainda não chegou lá). É a mesma raiz de “uttana” que vimos ali atrás — só que agora, em vez de esticar pra cima, o corpo dobra pra frente, num alongamento intenso da coluna inteira. Aí você pensa: “poxa, mas eu não chego nem perto do chão” — e tudo bem, ninguém nasceu tocando o chão com as mãos. Dobra os joelhos o quanto precisar.

4. Ashwa Sanchalanasana — a postura do cavaleiro

Inspirando, uma perna volta num grande passo para trás, joelho no chão, a outra perna dobrada entre as mãos, peito abrindo para cima. É a mesma imagem de quem monta a cavalo — daí o nome (“ashwa” é cavalo; “sanchalana” é movimento, balanço).

5. Phalakasana (Dandasana) — a prancha

Expirando (ou segurando o ar, dependendo da escola), a outra perna também vai para trás e o corpo forma uma linha reta só, da cabeça aos calcanhares. (“Phalaka” é tábua, prancha; “danda” é bastão, vara — as duas imagens do mesmo corpo reto.) Barriga ativada, ombro alinhado com o pulso — é aqui que mais gente deixa o quadril cair tipo rede de dormir. Não deixa!

6. Ashtanga Namaskara — a saudação com oito partes

“Ashta” é oito, “anga” é membro, parte do corpo — então Ashtanga Namaskara é a saudação apoiada em oito pontos: os dois pés, os dois joelhos, as duas mãos, o peito e o queixo tocam o chão, o quadril fica um pouco elevado no ar. Parece estranho na primeira vez, mas é só isso mesmo: oito apoios, sem afobação.

7. Bhujangasana — a cobra

Inspirando, o peito desliza para frente e sobe, cotovelos próximos ao corpo, ombros longe das orelhas. (“Bhujanga” é serpente, cobra — daí o nome.) A força vem das costas e dos braços, não da lombar espremida — se sentir beliscão na lombar, sobe menos.

8. Adho Mukha Svanasana — o cachorro olhando para baixo

Expirando, o quadril sobe e vai para trás, formando um “V” invertido, calcanhares buscando o chão sem obrigação de chegar lá. (“Adho” é para baixo, “mukha” é rosto, “svana” é cão — literalmente, o cão com o rosto voltado para baixo.) É a postura mais famosa do yoga, aquela que aparece até em capa de revista — e também uma das mais mal feitas, porque todo mundo quer esticar o joelho a qualquer custo e a coluna curva feito maria-mole. Dobra o joelho, alonga a coluna primeiro, o resto vem depois.

9. Ashwa Sanchalanasana — o cavaleiro na outra perna

Inspirando, a perna que ficou atrás volta para frente, entre as mãos, repetindo a postura 4 do outro lado. Simetria é tudo.

10. Uttanasana — a dobra de novo

Expirando, a outra perna se junta à primeira e o corpo dobra para frente outra vez, como na postura 3.

11. Hasta Uttanasana — braços para o céu de novo

Inspirando, o corpo sobe, os braços se esticam para cima, repetindo a postura 2.

12. Pranamasana — fecha como começou

Expirando, as mãos se juntam na frente do peito. Fim de uma rodada (um “round completo” costuma contar como duas passagens pela sequência, uma alternando a perna que vai pra trás primeiro). Daqui, ou você para, ou já inspira e começa outra.

Benefícios da Saudação ao Sol para o corpo e a mente

A sequência alonga e fortalece ao mesmo tempo — passa por flexão, extensão e apoio de peso, então mobiliza a coluna inteira, melhora a circulação (o corpo esquenta rápido, você sente isso na se

gunda rodada) e, como a respiração está amarrada em cada movimento, funciona também como um treino de concentração. Enquanto você conta inspira-expira-inspira, a mente não tem muito espaço sobrando pra ficar pensando na lista de compras. É por isso, inclusive, que nas aulas para iniciantes a gente passa um tempo bom só treinando a respiração antes de emendar a sequência inteira — o corpo pega o jeito rápido, a cabeça quieta demora um pouquinho mais.

Só um adendo importante: não existe uma pesquisa robusta medindo “quantos por cento a saudação ao sol melhora sua circulação” ou coisa parecida — e prefiro contar isso a inventar estatística bonita. O que existe é a observação de quem pratica (e ensina) há muito tempo, mais uma lógica fisiológica simples: exercício aeróbico leve combinado com mobilidade. Trato esse tipo de benefício como bem provável, não como fato cravado em laboratório. Vale dizer que esse ângulo — saudação ao sol como exercício físico, com benefício pra saúde do corpo — não é invenção de Instagram: é literalmente o argumento central do livro que popularizou essa sequência, o já citado The Ten-Point Way to Health, de 1928. O Rajah de Aundh vendeu a prática pro público da época exatamente por esse viés — disposição física, força, saúde —, não iluminação espiritual. Isso não invalida a camada mais contemplativa que a gente cultiva hoje na prática; só mostra que o “benefício pra saúde” sempre fez parte do pacote, desde o início da popularização dessa sequência.

Qual a diferença entre Saudação ao Sol A e B?

Essa dúvida aparece muito em quem já ouviu falar de Ashtanga Vinyasa — e aqui eu preciso corrigir uma confusão bem comum, inclusive entre professor: a Saudação ao Sol A do Ashtanga não é a sequência clássica de doze posturas que acabei de descrever. É uma sequência própria, mais enxuta: começa em Tadasana/Samasthitihi (não em Pranamasana), vai para os braços erguidos, dobra pra frente, e daí vai direto pra Chaturanga Dandasana — sem passar pela postura do cavaleiro (Ashwa Sanchalanasana) em nenhum momento, nem na ida, nem na volta. Depois de Chaturanga vem Urdhva Mukha Svanasana (a cobra alta) e Adho Mukha Svanasana, segurando por cinco respirações, antes de voltar pra frente e fechar a sequência. É um formato mais compacto e mais atlético, pensado pra fluir rápido dentro da prática Ashtanga.

A Saudação ao Sol B, dentro do Ashtanga, segue essa mesma lógica enxuta — também sem a postura do cavaleiro —, mas adiciona Utkatasana (a cadeira) no início e Virabhadrasana I (o guerreiro) de cada lado no meio da sequência, deixando o conjunto mais longo e mais quente — literalmente, esquenta mais o corpo, porque trabalha mais as pernas.

Já a sequência de doze posturas que descrevi lá em cima — com Ashwa Sanchalanasana incluída duas vezes — é mais próxima do que se ensina em linhas de Hatha Yoga e na maioria das aulas de yoga generalistas, incluindo boa parte das aulas de iniciante no Brasil. Não é “errada” nem “menos autêntica” que a versão do Ashtanga — são linhagens diferentes, cada uma com sua lógica e sua origem.

Contraindicações: quem precisa ter cuidado com a Saudação ao Sol

Hérnia de disco, pressão alta não controlada, lesões na lombar ou na cervical, gravidez (principalmente depois do primeiro trimestre, quando a prancha e a Ashtanga Namaskara comprimem a barriga) — em todos esses casos, a sequência clássica geralmente precisa de adaptação, e às vezes de substituição completa de alguma postura. Não vou te dar aqui uma lista fechada de “faça isso, evite aquilo”, porque cada corpo, cada exame e cada fase são diferentes — isso é conversa para você ter com seu médico e com um professor que veja você praticando ao vivo, não com um texto de blog,

por mais bem-intencionado que ele seja.

Aí vem a pergunta clássica: “ah, mas eu faço saudação ao sol desde sempre e nunca doeu nada”. Ótimo, sinal de que seu corpo e a prática estão se dando bem — só não vira regra geral pra quem tem um quadro diferente do seu.

Como começar na prática

  1. Comece com 2 a 3 rodadas, não com dez. A sequência parece curta no papel e cansa rápido quando a respiração ainda não está treinada para acompanhar o movimento.
  2. Aprenda uma postura de cada vez antes de tentar a sequência inteira fluindo. Ninguém decora coreografia de uma vez só.
  3. Deixe a respiração mandar no ritmo, não o contrário. Se você perdeu o fôlego no meio, pare, respire, e só depois continue — a sequência não tem prêmio por velocidade.
  4. Aumente aos poucos: de 2-3 rodadas, vá subindo pra 5, depois 8, no seu tempo, ao longo de semanas, não num único domingo de empolgação.

Repare que em nenhum item da lista tem “postura perfeita”. A meta nas primeiras semanas é terminar a sequência inteira sem perder o fio da respiração — o resto, o corpo ajusta sozinho, com repetição.

Perguntas frequentes

Quantas vezes por dia devo fazer a Saudação ao Sol?

Não existe um número mágico. Quem está começando já sente efeito com 2 a 3 rodadas, algumas vezes por semana. Praticantes mais avançados fazem 12, 24 rodadas seguidas como prática de aquecimento ou até como prática única do dia. O critério não é “quanto mais, melhor” — é “quanto o seu corpo aguenta com boa forma, sem compensação”.

Qual o melhor horário para praticar a Saudação ao Sol?

Tradicionalmente, é uma prática de manhã, de preferência olhando pro sol nascendo — daí o nome. Na vida real, com trânsito e reunião às 9h, o melhor horário é aquele que você consegue manter com consistência. De manhã ela funciona bem como despertador do corpo. À noite, funciona como aquecimento pra outra prática — mas com uma ressalva: por ser uma sequência que aquece e ativa o corpo, praticar tarde da noite pode deixar você acelerada demais pra dormir logo em seguida. Se o seu objetivo à noite é relaxar antes de deitar, a saudação ao sol provavelmente não é a melhor escolha — prefira algo mais calmo perto da hora de dormir, e deixe a saudação pra mais cedo no dia.

A Saudação ao Sol emagrece?

Ela mobiliza o corpo inteiro, então gasta energia, sim. Mas eu sempre falo isso pros meus alunos: emagrecer pode até ser uma consequência, mas não é o alvo da prática. Se o seu único objetivo é queimar caloria, tem jeito mais eficiente de fazer isso. O ganho real da saudação ao sol é mais amplo do que o que aparece na balança.

Preciso de um professor, ou dá pra aprender sozinha só com vídeo?

Vídeo é uma ótima porta de entrada pra memorizar a sequência e perder o medo de errar a ordem. Mas alinhamento fino — o ângulo do joelho na postura do cavaleiro, o apoio certo na prancha — é difícil de corrigir sozinha olhando uma tela. Se puder, comece com alguém observando ao vivo, mesmo que só nas primeiras semanas.

Grávida pode praticar Saudação ao Sol?

Com adaptação, em muitos casos sim — mas essa é justamente uma daquelas perguntas que precisa passar pelo médico que acompanha a sua gravidez e por um professor com experiência em yoga pra gestantes, olhando o seu caso específico e a fase da gestação, antes de qualquer resposta genérica valer alguma coisa. Não pratique com base só no que um texto de blog disse — confirme com quem te acompanha de perto.

E aí, bora testar? Pega o tapete, escolhe 2 ou 3 rodadas pra começar hoje, sem pressa nenhuma. Se preferir ver a sequência em movimento antes de tentar sozinha, dá uma olhada nos vídeos — tem bastante coisa boa por aí. E se você já sentiu que quer ir além do “fazer a prática” e entender de verdade o que está por trás de cada postura, as aulas para iniciantes e a Formação de Professores de Yoga estão com a porta aberta pra você.

 

 

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