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Kleshas: as 5 causas do sofrimento e como enfraquecê-las

Por Leandro Castello Branco ·

Kleshas: as 5 causas do sofrimento e como enfraquecê-las

Imagem: Magda Ehlers (licença Pexels, Openverse)

Toda vez que uma aluna chega pra mim e diz “professor, eu sei que não devia ficar presa nisso, mas eu fico”, eu penso a mesma coisa: isso tem nome. Na verdade, tem cinco nomes. Patanjali, lá no Yoga Sutra, chamou esse conjunto de amarras de kleshas — e não, não é o nome de uma banda de rock indiano, é a palavra em sânscrito pra “aflição”, aquilo que contamina a mente e gera sofrimento. Se você já se perguntou por que, apesar de toda a sua boa vontade, você continua repetindo os mesmos padrões de apego, medo e irritação, a resposta clássica do yoga está exatamente aqui, nos cinco kleshas. Vamos entender cada um, de onde eles vêm no texto e, principalmente, o que fazer com eles — porque conhecer o inimigo sem ter um plano de ação não adianta muito, né?

O que são os kleshas no Yoga Sutra de Patanjali

Os kleshas aparecem no segundo capítulo do Yoga Sutra, nos sutras 2.3 a 2.9, antes de Patanjali chegar nos oito membros do yoga (o ashtanga — ashta é oito, anga é membro, parte). Repare na ordem: o capítulo abre com o kriya yoga, a prática, e logo no sutra 2.2 Patanjali diz pra que ela serve — pra levar ao samadhi e pra enfraquecer os kleshas. Só então ele explica o que são esses kleshas. Ou seja: o problema, segundo ele, não é o mundo lá fora. É uma camada de contaminação na própria mente, que ele resume em cinco: avidya (ignorância), asmita (a identificação do “eu”), raga (apego), dvesha (aversão) e abhinivesha (apego instintivo à vida, o medo da morte).

A imagem que o próprio Patanjali usa pra relação entre eles é a de um campo. No sutra 2.4, ele diz que avidya é o campo onde os outros quatro crescem — e que eles podem estar em quatro estados: dormentes, atenuados, interrompidos ou plenamente ativos. Os kleshas são como sementes nesse campo. Algumas brotam e viram ação; outras ficam enterradas, esperando a chuva certa. Por isso trabalhar só o sintoma cansa tanto: você arranca uma raiva específica, um apego específico, e amanhã brota outro do mesmo campo. O trabalho de verdade é no solo.

Se você já leu os Yoga Sutras de Patanjali na íntegra, sabe que o texto é seco, quase telegráfico — Patanjali não perde tempo com flores. Ele descreve o funcionamento da mente como quem desmonta um motor, e é por isso que o caminho dele ficou conhecido como raja yoga, o yoga da mente. Os kleshas são, nessa descrição, a explicação técnica de por que a mente sofre.

Avidya: a ignorância que confunde o que passa com o que fica

Avidya é o primeiro klesha e o campo onde todos os outros crescem, “esteja ele dormente, atenuado, interrompido ou ativo”, como diz o sutra 2.4. Traduzir avidya por “ignorância” é correto, mas incompleto: não é falta de informação, tipo não saber a capital da Mongólia. É um erro de percepção específico, que Patanjali define no sutra 2.5 — confundir o impermanente com o permanente, o impuro com o puro, o doloroso com o prazeroso, e o não-eu com o eu.

Na prática, avidya é você tratar o seu humor de terça-feira como se fosse a verdade definitiva sobre quem você é. É achar que aquele emprego, aquele relacionamento, aquele corpo de hoje vai durar do jeito que está, e se desesperar quando (inevitavelmente) muda. Eu sei o que você está pensando: “mas professor, eu sei muito bem que tudo passa, eu não sou burra”. E aí está o truque de avidya — ela não vive no nível do que você sabe. Vive no nível do que você sente quando a vida te mostra, na prática, que nada fica.

Asmita: o ego e a dificuldade de superar essa identificação no yoga

Asmita, descrita no sutra 2.6, é a identificação entre o poder de ver (o que a filosofia do yoga chama de purusha, a consciência) e os instrumentos com que a gente vê (corpo, mente, as ferramentas da percepção). Em bom português: é confundir quem eu sou com o conjunto de rótulos que carrego — meu currículo, minha opinião política, meu desempenho na aula de ashtanga, meu Instagram.

Superar o ego no yoga não quer dizer virar um zumbi sem personalidade. Quer dizer parar de apostar a sua paz na defesa desses rótulos. Repara como a gente se ofende quando alguém discorda da nossa opinião sobre um filme, como se a opinião fosse um órgão vital. Isso é asmita trabalhando. A auto-observação — sentar na meditação e simplesmente notar “ah, lá vem a vontade de ter razão de novo” — é o primeiro jeito de enfraquecer esse padrão, sem precisar arrancá-lo à força.

Raga: o apego e o prazer que vira corrente

Raga, segundo o sutra 2.7, é o apego que segue o prazer. Você sentiu um prazer — numa comida, numa relação, num elogio, numa prática de yoga que “funcionou” — e a mente, em vez de deixar a experiência passar, grava: “isso foi bom, eu preciso disso de novo”. Daí pra ganância, vício e dependência é um pulo.

O problema não é o prazer em si — o yoga clássico não é uma seita que condena a alegria. O problema é a corrente que se forma quando a gente passa a organizar a vida em torno de repetir aquela sensação. É o aluno que adora a sensação de relaxamento da primeira aula e, um mês depois, está irritado porque nenhuma aula “funciona” como aquela. Isso é raga: a tentativa de engarrafar um momento que, por natureza, era passageiro.

Dvesha: a aversão que foge do desconforto a qualquer custo

Dvesha, no sutra 2.8, é o espelho de raga: a aversão que segue a dor. Você sentiu dor, frustração, vergonha — e a mente grava “isso foi ruim, evite a qualquer custo”. Daí nascem o medo, a raiva e aquela lista crescente de coisas que você “não suporta”.

No tapete, dvesha aparece na postura que você sempre pula porque “não é boa pra mim” (quase sempre é exatamente a que mais precisaria de atenção). Fora do tapete, aparece na conversa que você evita, na pessoa que você já decidiu que não gosta antes de ela abrir a boca. O yoga não pede que você curta tudo — pede que você note quando a aversão virou automática, uma reação de pele, em vez de uma escolha.

Abhinivesha: o medo da morte e o apego instintivo à vida

O quinto e último klesha é, pra mim, o mais honesto de todos: abhinivesha, o apego instintivo à própria vida, a vontade de continuar existindo, que carrega dentro de si o medo da morte. No sutra 2.9, Patanjali diz que ele flui pela própria natureza e está firmemente instalado até em quem é sábio — ou seja, não é um defeito moral, é uma marca profunda, instintiva, que nem o conhecimento intelectual desliga. Vyasa, o comentador clássico, vai além do texto: argumenta que esse medo aparece até num ser recém-nascido, que nunca viu a morte, e conclui que ele vem da memória de mortes vividas em existências anteriores.

Esse klesha explica por que a gente trava diante de qualquer mudança grande — trocar de emprego, terminar um relacionamento, envelhecer. Toda mudança é um ensaio pequeno pra morte, e a mente instintivamente resiste. Não é fraqueza sua: é estrutural. A diferença é que, com prática, você aprende a notar essa resistência sem deixar que ela decida tudo por você.

Como Patanjali propõe enfraquecer os kleshas

Patanjali não deixa você só com o diagnóstico — e o remédio que ele dá vem em camadas. A primeira é justamente o kriya yoga, aquele com que o capítulo abre: tapas (disciplina), svadhyaya (estudo de si e dos textos) e ishvara pranidhana (entrega a Ishvara, algo maior que o ego). Segundo o sutra 2.2, a função dessas três práticas é exatamente atenuar os kleshas. Depois, no sutra 2.11, ele diz que as manifestações ativas dos kleshas são eliminadas pela meditação (dhyana). E, no fim do caminho, é o discernimento claro entre a consciência e o que não é consciência (viveka) que acaba com avidya — e, com ela, com o campo inteiro. A tradição compara isso a tostar as sementes: elas continuam ali, mas não brotam mais.

No meio do caminho, há uma ferramenta muito útil chamada pratipaksha bhavana (sutra 2.33): cultivar o pensamento oposto. Patanjali a propõe pra quando surgem pensamentos que vão contra os princípios éticos do yoga — violência, mentira, cobiça —, mas ela funciona muito bem pros movimentos do dia a dia que nascem dos kleshas. Raiva de alguém? Cultive, com esforço mesmo, um pensamento de boa vontade pra essa pessoa. Não porque a raiva seja proibida, mas porque a mente não sustenta duas direções opostas com a mesma força por muito tempo — uma vai ceder.

Isso não é “pensamento positivo” de adesivo de geladeira. É treino, repetido, que vai afinando o hábito mental, do mesmo jeito que você treina um músculo. Auto-observação, meditação e os princípios éticos do yoga não existem pra te deixar “bonzinho”: existem pra ir, aos poucos, enfraquecendo exatamente essas cinco raízes.

Como começar na prática

Dá trabalho? Dá. Mas é um trabalho concreto, não uma promessa vaga de “iluminação”. Alguns passos que eu de fato oriento meus alunos a seguir:

  1. Nomeie o klesha, sem julgamento. Quando notar um apego forte, uma irritação automática ou aquele medo de mudança, só pare e identifique: “isso é raga”, “isso é dvesha”. Nomear já tira um pouco do automatismo.
  2. Use a respiração e a postura como laboratório. No tapete, os kleshas aparecem em miniatura — a postura que você evita, a comparação com o colega do lado, a pressa de terminar a prática. É um espaço seguro pra treinar a observação antes de levar isso pra vida real.
  3. Pratique pratipaksha bhavana com situações pequenas primeiro. Não comece tentando neutralizar o medo da morte. Comece com a irritação no trânsito ou a vontade de checar o celular. O músculo se fortalece de baixo pra cima.
  4. Tenha constância, não intensidade. Dez minutos de meditação todo dia enfraquecem mais um klesha do que uma hora só no fim de semana. A mente aprende por repetição, não por esforço pontual.
  5. Estude a filosofia junto com a prática física. Entender avidya, asmita, raga, dvesha e abhinivesha dá contexto pro que você sente no tapete — e svadhyaya, o estudo, é literalmente parte do remédio que Patanjali receita. É exatamente esse tipo de estudo que aprofundamos na formação de professores de yoga, porque dar aula sem entender a raiz do sofrimento é só ensinar alongamento.

E se, no meio do caminho, você sentir que está tudo muito abstrato, lembra da imagem do campo: você não precisa limpar o terreno inteiro de uma vez. Cada semente que você deixa de regar já é uma a menos pra brotar.

Perguntas frequentes

Quantos kleshas existem e quais são?

São cinco: avidya (ignorância), asmita (a identificação do “eu”), raga (apego), dvesha (aversão) e abhinivesha (apego instintivo à vida, medo da morte). Eles aparecem no Yoga Sutra de Patanjali, nos sutras 2.3 a 2.9.

Qual klesha é considerado a raiz de todos os outros?

Avidya. No sutra 2.4, Patanjali diz que ela é o campo onde os outros quatro crescem, em estado dormente, atenuado, interrompido ou ativo.

Os kleshas podem ser eliminados de vez?

Segundo Patanjali, sim, mas por etapas. O kriya yoga os atenua (sutra 2.2), a meditação elimina suas manifestações ativas (2.11), e o discernimento entre a consciência e o que não é consciência acaba com avidya, a raiz. No último capítulo (4.30), ele descreve a cessação dos kleshas e do karma. É trabalho de longo prazo, não um evento único.

O que é pratipaksha bhavana e como eu aplico isso no dia a dia?

É cultivar deliberadamente o pensamento oposto a um padrão perturbador. Patanjali a propõe no sutra 2.33 pra pensamentos contrários aos princípios éticos do yoga, mas ela funciona bem pra qualquer movimento mental nascido dos kleshas: se surge uma onda de raiva, você direciona a atenção pra um pensamento de boa vontade. Funciona melhor quando treinada em situações pequenas antes de ser aplicada nos padrões mais profundos.

Os kleshas têm relação com o ego que a gente sente fora do tapete?

Têm, e bastante. Asmita é exatamente essa identificação entre quem você é e os rótulos que você carrega (opinião, desempenho, imagem). Ela aparece tanto numa discussão de trabalho quanto na competição silenciosa que às vezes rola dentro de uma aula de yoga.

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