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Yoga Sutras de Patanjali: o que são e os 8 passos

Por Leandro Castello Branco ·

Yoga Sutras de Patanjali: o que são e os 8 passos

Imagem: Yerzhan Kamalov (licença Pexels, Openverse)

Ei, você aí! Deixa eu confessar uma coisa antes de qualquer coisa: muita gente que dá aula de yoga nunca leu os Yoga Sutras de Patanjali de ponta a ponta — e olha que eu vivo mergulhado nesse texto desde que morei na Índia. Relaxa, não é feio confessar isso. Os Yoga Sutras de Patanjali são o texto fundador da filosofia do yoga: 196 versos curtos (195 em algumas edições), escritos em sânscrito, que organizam (bota ordem na casa, viu?) o que antes era uma bagunça de práticas espalhadas por diferentes linhagens. Se você já fez aula de yoga e nunca entendeu de onde vêm palavras como “ashtanga”, “yama” ou “samadhi”, é aqui que elas nascem.

Então vem comigo. Eu vou te mostrar o que esse texto diz de fato — sem espaço para lenda nem para promessa de iluminação instantânea — e por onde você pode começar a ler sem se afogar.

Quem foi Patanjali e o que são os Yoga Sutras de Patanjali

Primeiro, a pergunta que todo mundo faz: quem foi esse tal de Patanjali? E aqui eu preciso ser honesto com você, porque essa é uma área em que eu prefiro confessar a dúvida do que inventar certeza. A tradição indiana costuma identificar o autor dos Yoga Sutras com o Patanjali gramático, que teria vivido por volta do século II a.C. Já a maioria dos estudiosos modernos situa a composição do texto mais tarde, entre os séculos III e V d.C. Há inclusive quem debata se existiu um único Patanjali ou se o nome reúne a obra de mais de um autor. Ou seja: não dá pra tratar a data como fato de cartório.

O que dá pra afirmar com segurança: Patanjali não inventou o yoga. Ele sistematizou o que já se praticava há gerações, igual quem organiza uma biblioteca que estava toda fora de ordem — livro empilhado, estante sem etiqueta. Os Yoga Sutras de Patanjali são exatamente isso: um manual de organização da mente, dividido em aforismos (sutra, em sânscrito, quer dizer “fio” — a ideia é que cada verso é um fio curto que, enfiado com os outros, forma um colar). Nada de parágrafo longo. É quase um compilado de tweets antigos, cada um denso o bastante pra exigir um comentário de página inteira.

Citta vritti nirodha: o significado do objetivo que Patanjali define já no segundo verso

Se os Yoga Sutras tivessem um resumo de capa, seria o verso 1.2: “yogas citta vritti nirodhah”. Trocando em miúdos: yoga é a cessação (nirodha) das flutuações (vritti) da mente (citta). O significado de citta vritti nirodha, então, é mais ou menos: yoga é aquietar o turbilhão de pensamentos.

Eu gosto de comparar citta a um lago. Um lago cristalino, só que com o vento da preocupação batendo na superfície sem parar — aquele boleto, aquele comentário mal-educado, aquela lembrança de 2009 que não devia mais morar na sua cabeça. Enquanto o vento bate, você não vê o fundo do lago. Yoga, pra Patanjali, é a prática que aquieta esse vento até a água ficar parada o suficiente pra você enxergar o que de fato está lá embaixo. Reparou que isso não tem nada a ver com colocar o pé atrás da cabeça? Pois é — e é exatamente esse ponto que eu quero que você guarde.

A estrutura em quatro capítulos (padas) dos Yoga Sutras de Patanjali

Os Yoga Sutras são divididos em quatro padas (capítulos, literalmente “pés” ou “partes”):

  • Samadhi Pada (capítulo da absorção): define o que é yoga e descreve os estados mais profundos de concentração. É o capítulo mais filosófico, quase de tirar o fôlego de tão direto.
  • Sadhana Pada (capítulo da prática): o mais citado em aula, porque é aqui que Patanjali apresenta o Ashtanga Yoga, os oito passos que eu vou detalhar já, já — os cinco primeiros são explicados neste capítulo.
  • Vibhuti Pada (capítulo dos poderes): abre com os três últimos passos (concentração, meditação e absorção) e depois fala dos siddhis, poderes ditos sobrenaturais que surgiriam no caminho — e Patanjali, olha a sabedoria, avisa que eles são obstáculo, não o destino.
  • Kaivalya Pada (capítulo da liberação): trata do objetivo final, a tal “kaivalya” que eu explico mais abaixo.

Ahhh, e antes que você pense “ótimo, mais uma lista pra memorizar”: relaxa, você não precisa recitar os quatro nomes de cabeça pra se beneficiar do texto. Serve só pra você não se perder quando alguém citar “lá no Sadhana Pada” numa roda de conversa.

Os oito passos do Ashtanga Yoga segundo Patanjali

Aqui está o coração prático dos Yoga Sutras de Patanjali — e também a maior fonte de confusão do mercado de yoga. Ashtanga (ashta = oito, anga = membros ou partes) é o nome que Patanjali dá à estrutura de oito passos para aquietar a mente. Atenção, porque esse é o ponto que mais gera mal-entendido: esse Ashtanga Yoga filosófico de Patanjali não é o mesmo “Ashtanga Vinyasa” que você vê como estilo de aula física, com sequência fixa de posturas. São primos de nome, não gêmeos de conteúdo — a palavra foi reaproveitada muitos séculos depois, já no século XX, para nomear um método de asanas. O significado original de ashtanga yoga, no texto de Patanjali, é bem mais amplo que postura.

Os 8 passos do yoga de Patanjali são:

  1. Yama — condutas éticas voltadas para fora, pra como você trata o mundo.
  2. Niyama — condutas éticas voltadas para dentro, pra como você trata a si mesma.
  3. Asana — a postura física, mas no sentido original de “postura estável e confortável para a meditação”, não a ginástica elástica que a gente vê hoje no Instagram.
  4. Pranayama — a regulação da respiração (prana = energia vital, ayama = extensão, expansão; há quem leia também como prana + yama, “controle”).
  5. Pratyahara — o recolhimento dos sentidos. É tipo quando você está lendo um livro tão bom que esquece que tem gente conversando do seu lado. Os sentidos se voltam pra dentro.
  6. Dharana — concentração: fixar a mente num único ponto.
  7. Dhyana — meditação propriamente dita, o fluxo contínuo de atenção.
  8. Samadhi — absorção total, quando quem observa e o que é observado deixam de parecer duas coisas separadas.

Reparou que só o terceiro item, asana, é postura? Os outros sete são ética, respiração e mente. Isso já responde uma dúvida clássica de aluno: “Leandro, eu fico uma hora no tapetinho fazendo asana e esqueço os outros sete?” Pois é, essa é exatamente a bagunça que precisa de ordem.

Yamas: os cinco combinados de como tratar o mundo

Os yamas são cinco condutas — eu prefiro chamar de “combinados” porque fica menos de cartilha escolar e mais de acordo adulto com a vida:

  • Ahimsa (não violência): com os outros e, muito importante, com você mesma. Ahimsa também é não se cobrar postura perfeita.
  • Satya (verdade): dizer e viver a verdade, mesmo quando é mais fácil enrolar.
  • Asteya (não roubar): inclui não roubar o tempo dos outros e não roubar crédito que não é seu.
  • Brahmacharya (moderação, uso consciente da energia vital): tradicionalmente ligado à continência sexual, mas numa leitura mais ampla é sobre não desperdiçar energia em excessos.
  • Aparigraha (não apego, não acúmulo): soltar a mão do que não precisa estar ali.

Niyamas: os cinco combinados de como tratar a si mesma

Se os yamas olham para fora, os niyamas olham para dentro:

  • Saucha (limpeza): do corpo, do espaço, da mente.
  • Santosha (contentamento): cultivar satisfação com o que já é, sem depender do próximo like.
  • Tapas (disciplina, “calor” da prática): o esforço que sustenta qualquer mudança real. Dá trabalho? Dá! É esse o ponto.
  • Svadhyaya (autoestudo): estudar os textos, sim, mas também se observar.
  • Ishvara Pranidhana (entrega a Ishvara, o Senhor): soltar o controle total que a mente insiste em querer ter sobre tudo.

Essa é a explicação de yamas e niyamas em versão de sala de aula, sem enrolação: dez combinados, cinco pra fora, cinco pra dentro, que vêm antes do asana na lista de Patanjali — não por acaso.

Purusha e prakriti: a dupla que sustenta toda a filosofia dos Yoga Sutras

Calma, pequeno gafanhoto, que esse é o ponto mais abstrato e eu vou com cuidado. Patanjali trabalha dentro de uma visão dualista: de um lado, purusha, a consciência pura, testemunha imóvel; do outro, prakriti, a matéria, tudo que se move e se transforma — seu corpo, seus pensamentos, suas emoções, inclusive aquele turbilhão de vritti que eu te falei lá atrás. O enredo inteiro dos Yoga Sutras é a confusão entre purusha e prakriti — que o texto atribui à avidya, a ignorância —, como se a tela de cinema achasse que ela é o filme que está passando nela. A prática inteira é um processo de desidentificação: devagar, você vai percebendo “ah, eu não sou o pensamento ansioso, eu sou quem observa o pensamento ansioso”.

Yoga Sutras e yoga postural são a mesma coisa?

Não, e essa é talvez a confusão mais comum que eu encontro em aula. O yoga postural que você vê hoje — vinyasa, hatha, todas as variações de asana que lotam estúdio — é uma fração pequena do que Patanjali descreve. Dos versos dos Yoga Sutras, só três tratam especificamente de asana, e nenhum deles descreve uma postura específica como “cachorro olhando pra baixo”. O foco do texto é a mente, não o corpo. O corpo entra como ferramenta — você precisa de uma postura estável pra conseguir sentar e meditar sem o joelho gritando — mas nunca como o objetivo final.

Isso não desvaloriza sua prática de asana, relaxa! Só coloca ela no lugar certo: ferramenta, não destino. Eu já escrevi sobre essa diferença entre caminhos quando falei do Raja Yoga, nome que a tradição posterior passou a usar para o caminho descrito por Patanjali — em contraste com o Hatha Yoga, mais focado no corpo como ponto de partida.

Kaivalya e samadhi: pra onde tudo isso aponta

O objetivo final do yoga, segundo Patanjali, chama-se kaivalya — isolamento ou liberação. É o momento em que purusha se reconhece como pura consciência, totalmente desenredado de prakriti. Samadhi, que é o oitavo passo do ashtanga, é a porta de entrada pra esse estado: a absorção em que a divisão entre quem observa e o que é observado se dissolve.

Eu preciso te fazer uma confissão aqui: eu já pratico há mais de vinte e cinco anos e não vou te dizer que atingi kaivalya, nem vou prometer que você vai atingir numa maratona de fim de semana. Esse é o tipo de meta que se mede em vida inteira, não em aula de domingo. O que eu posso te garantir é que cada passo nessa direção — um yama praticado, uma respiração mais consciente, cinco minutos de dharana — já muda a textura do seu dia. Dá trabalho? Dá! Vale a pena? Muito.

Qual a melhor tradução dos Yoga Sutras de Patanjali para começar a ler

“Qual a melhor tradução dos Yoga Sutras de Patanjali?” é uma pergunta que eu ouço o tempo todo. A minha indicação é a tradução da professora Glória Arieira, uma das maiores referências do Vedanta no Brasil e parte da linhagem em que eu me formei. Ela traz o rigor de quem estuda os textos diretamente no sânscrito, com a clareza de quem passou décadas ensinando — exatamente a combinação que um iniciante precisa.

E, seja qual for a edição que você tiver nas mãos, vale usar estes critérios:

  • Prefira uma edição que traga o sutra original em sânscrito transliterado, a tradução literal palavra por palavra e depois um comentário explicativo. Sem esse comentário, boa parte dos versos vira enigma.
  • Desconfie de versão que promete “o segredo da felicidade em 196 frases”. Os sutras são densos, filosóficos, às vezes áridos — qualquer edição que prometa leitura fácil de praia já está suavizando demais.
  • Leia um capítulo por vez, nunca o livro inteiro numa tarde. É texto pra mastigar, não pra devorar.

Como começar na prática dos Yoga Sutras de Patanjali

Ok, chega de teoria pura — vamos aos finalmentes, na prática mesmo. Se você quer sair desse artigo com algo pra fazer hoje, aqui vai um roteiro de filosofia do yoga para iniciantes:

  1. Comece pelo Sadhana Pada, o segundo capítulo. É o mais aplicável — lá estão apresentados os oito passos — e evita que você se afogue de cara na metafísica mais densa do primeiro capítulo.
  2. Escolha um yama e um niyama pra observar por uma semana, nada mais. Satya (verdade) é um ótimo ponto de partida: durante sete dias, repare só em quantas vezes você mesma enrola a verdade pra si mesma.
  3. Sente por cinco minutos todos os dias numa postura estável — não precisa ser de pernas cruzadas no chão, pode ser numa cadeira — e pratique dharana: escolha um único ponto de atenção, pode ser a respiração, e volte pra ele sempre que a mente fugir. Ela vai fugir. Sempre foge. Faz parte.
  4. Leve um verso por vez pra sua prática de asana: enquanto estiver numa postura, lembre que o alvo ali é estabilidade e conforto suficientes pra mente sossegar, não a foto perfeita pro feed.
  5. Releia com calma: os Yoga Sutras não se entregam numa leitura só. Eu releio trechos até hoje e ainda encontro camada nova.

Se você quiser se aprofundar na filosofia por trás disso, vale saber que a mesma raiz que sustenta os Yoga Sutras aparece, com outro sotaque, em textos como a Bhagavad Gita e no caminho do conhecimento descrito pelo Jnana Yoga. Eu costumo dizer que entender esses textos é parecido com entender os chakras: ninguém vira especialista lendo um resumo de internet — é estudo que se faz devagar, com orientação, de preferência ao vivo com alguém que já andou o caminho antes de te levar por ele.

Assista: os Yoga Sutras de Patanjali em vídeo

Se você prefere ouvir a ler, eu explico esse assunto também em vídeo, lá no meu canal:

Perguntas frequentes sobre os Yoga Sutras de Patanjali

Os Yoga Sutras são indicados para iniciantes?

São, sim — desde que você não espere uma leitura de capa a capa numa tarde de domingo. Eu recomendo começar pelo Sadhana Pada (segundo capítulo), que é o mais prático, e usar uma edição com comentário explicativo, como a da professora Glória Arieira. Ler sozinha, sem nenhum apoio, costuma ser mais frustrante que proveitoso pra quem está começando.

Qual a diferença entre os Yoga Sutras e o yoga postural (asanas)?

Os Yoga Sutras são um texto de filosofia da mente: dos seus versos, só três tratam de asana, e nenhum descreve uma postura específica. O yoga postural que a gente pratica hoje em estúdio é uma expressão bem mais recente e bem mais focada no corpo. Um não substitui o outro — eles se completam.

Qual o objetivo final do yoga segundo Patanjali?

Kaivalya: a liberação, o momento em que a consciência (purusha) se reconhece distinta da matéria e dos pensamentos (prakriti). O caminho até lá passa pelos oito passos do ashtanga, terminando em samadhi, a absorção total.

Preciso saber sânscrito para ler os Yoga Sutras de Patanjali?

Não precisa. Edições boas trazem o verso original transliterado, a tradução literal e um comentário em português. O sânscrito ajuda a entender nuances — porque tradução sempre perde um pouco da palavra original — mas não é pré-requisito pra começar.

Ashtanga Yoga dos Yoga Sutras é o mesmo Ashtanga Vinyasa das aulas de yoga?

Não são a mesma coisa, apesar do nome compartilhado. O Ashtanga Yoga de Patanjali é a estrutura filosófica de oito passos — ética, respiração, concentração, meditação. O Ashtanga Vinyasa é um estilo de prática física, com sequência fixa de posturas, criado no século XX. Primos de nome, histórias diferentes.

Quer ler os textos com quem estudou na fonte?

Na Aula de Vedanta a gente pega os textos antigos verso a verso, direto do sânscrito, e vê o que eles têm a ver com a sua vida. Aula semanal, online, e fica gravada.

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