A tradição do yoga é muito antiga e tem sua origem nos Vedas. Estes são grupamentos de mantras, que foram recebidos pelos sábios, chamados de rishis, há mais de sete mil anos atrás.
Antes de ir a frente, um adendo – em termos de origem e desenvolvimento dessas filosofias de vida, na Índia, nada é certo. Os textos não são datados, muitas vezes não se tem certeza sobre quem escreveu e quando.
Dito isto, uma corrente acredita que, derivados dos Vedas, os textos tântricos apareceram posteriormente. Alguns outros acreditam que os tantras precedem os Vedas. Seja como for, o importante é o caminho que esses textos propõem para o desenvolvimento e autoconhecimento do indivíduo através da espiritualidade.
Chakras
Você já ouviu falar em chakras? Pois então, e dai que vem a definição, localização e modo de atuação destes centros de energia. Os tantricos acreditam que é preciso desenvolver cada um destes centros, passando por todos os processos psíquicos que eles acarretam. E a forma de fazer isso é despertando a energia criativa que está adormecida no primeiro chakra – esta é a Kundalini, ou, aquela que está enrolada, recolhida, como uma cobra.
Aí você pensa: “tá, mas isso está escrito em algum lugar ou é tradição oral de professor pra aluno?”. Está escrito, e com endereço. O texto de referência sobre os chakras é o Sat-Chakra-Nirupana (“a descrição dos seis centros”), escrito por Purnananda no século XVI e traduzido por John Woodroffe, que publicava como Arthur Avalon, em The Serpent Power – eu leio a segunda edição revista, da Ganesh & Co., Madras, 1924. É de lá que vem quase tudo o que você vê hoje em pôster de loja de yoga – só que no original vem com muito mais detalhe, e com um porquê pra cada número.
Kundalini Shakti – o poder do Universo
Shakti quer dizer poder. E poder e a capacidade de realizar alguma coisa. A Tradição diz que Shakti – o poder feminino – foi responsável pela criação do universo inteiro. Estrelas, galáxias, planetas, cometas, o tempo, o espaço e… eu e você.
E eles dizem também que esse poder que gerou essa vida em você reside dentro do seu corpo, dormente na base da coluna, no primeiro chakra.
Kundalini Yoga é o conjunto de técnicas para despertar e explorar esse potencial. Mas, como isso é feito?
Técnica e Disciplina
Pensa bem: energia é um troço sutil. Como que você vai mexer com ela? Na verdade não é tão misterioso assim. Quando você corre, se movimenta, fala, usa energia. Até mesmo ficar parado consome energia. O corpo gera calor, movimenta os processos naturais como a digestão, etc.
Os yogis usam, portanto, pra começo de conversa, o corpo e a respiração para movimentar a energia dos chakras – estes são os asanas (posturas) e pranayamas (respiração). Através do grosseiro está se querendo atingir o sutil.
Mas você pode ir direto lá, afinal, você tem um instrumento para isso. Algo que é sutil, completamente sem forma e com potencial quase infinito. É a nossa mente.
Através dela acontecem as visualizações, meditações e concentrações nas representações dos chakras.
Flores de poder
Os chakras são representados como flores de lotus, em cujas pétalas os mantras daquele centro são inscritos. Cada centro tem também um elemento, uma deidade masculina, uma feminina e uma cor – tudo para ajudar a entender e condensar a energia e o aspecto psico-fisico daquele centro.
Por exemplo: o chakra que está localizado no coração, chamado de Anahata, é o centro das emoções. Ele tem o elemento ar, 12 pétalas e a cor verde. As deidades são Isha, a masculina, e Kakini, a feminina, que é como o Sat-Chakra-Nirupana as nomeia nos versos 22 a 27. Através da meditação correta e das posturas que estimulam esse centro, podemos superar as dificuldades ligadas a ele.
Os seis centros, como o texto descreve
Vale ver a lista inteira, porque ela mostra uma lógica que se perde no pôster colorido: cada centro sobe um degrau de sutileza, e o elemento vai ficando mais leve conforme você sobe.
1. Muladhara (mula = raiz, adhara = suporte), na base da coluna, versos 4 a 12. Quatro pétalas, elemento terra, a sílaba lam. É onde a Kundalini está adormecida. Os versos 10 e 11 são bem específicos: ela é fina como a fibra do caule do lótus, enrolada três voltas e meia como a espiral de uma concha, e a boca dela tapa a porta de Brahma. Aquela cobra recolhida que eu mencionei lá em cima tem número de voltas. Terra é o que sustenta: sem chão, nada do resto se constrói.
2. Svadhisthana (sva = próprio, sthana = lugar), logo acima, versos 14 a 18. Seis pétalas, elemento água, a sílaba vam. Água é o que flui e toma a forma do vaso – desejo, criatividade, aquilo que se move em você antes de você decidir.
3. Manipura (mani = joia, pura = cidade), no umbigo, versos 19 a 21. Dez pétalas, elemento fogo, a sílaba ram. Fogo transforma: é o centro da digestão, e também o da vontade, daquilo que você consegue realizar.
4. Anahata, no coração, versos 22 a 27. A sílaba é yam, e o nome quer dizer “não golpeado”: o som que existe sem que nada precise bater em nada.
5. Vishuddha, na garganta, versos 28 a 31. Dezesseis pétalas, elemento éter, a sílaba ham. Vishuddha é “puro”, sem impureza – é o centro ligado à expressão, à palavra que sai limpa.
6. Ajna, entre as sobrancelhas, versos 32 a 38. Duas pétalas só, e nenhum elemento: aqui os elementos já acabaram. A sílaba é om. É o centro do comando, e o nome quer dizer exatamente isso – “ordem”, “instrução”.
Acima deles, o Sahasrara, o lótus de mil pétalas no alto da cabeça (versos 40 a 49), que nos textos não é tratado como mais um centro da fila, e sim como o lugar onde o caminho desemboca.
Repare numa coisa que o pôster nunca conta: 4 + 6 + 10 + 12 + 16 + 2 dá cinquenta, exatamente as cinquenta letras do sânscrito, uma em cada pétala. O Ajna tem duas pétalas porque sobraram as duas últimas letras, Ha e Ksha. E não é sorteio: as dezesseis pétalas da garganta são as dezesseis vogais, e as consoantes ficam nos centros de baixo. Não é numerologia: é o alfabeto inteiro distribuído pelo corpo.
E a Kundalini, nos textos de hatha yoga?
A Hatha Yoga Pradipika, que a datação corrente põe no século XV, abre o terceiro capítulo justamente com ela, e a imagem que usa é ótima: assim como a serpente mítica sustenta a terra com todas as suas montanhas e florestas, a Kundalini é o suporte de todas as práticas de yoga (III.1). Suporte, viu? Não prêmio. Não é o troféu no fim da prateleira – é o chão em que a prateleira está apoiada.
O resto daquele capítulo é uma lista de técnicas – as mudras e os bandhas, os fechamentos e selos que trabalham a respiração e o assoalho pélvico. O verso 6 nomeia sete delas – Maha Mudra, Maha Bandha, Maha Vedha, Khechari, Uddiyana Bandha, Mula Bandha e Jalandhara Bandha – e o verso 7 acrescenta Viparita Karani, Vajroli e Sakti Chalana. Ou seja: mesmo o texto mais “energético” da tradição trata o assunto como trabalho de corpo e respiração feito com método, e não como fenômeno que cai do céu num fim de semana.
E aqui vem a pergunta que mais chega, então vou responder sem enfeite: eu não prometo experiência de Kundalini pra ninguém, e desconfio de quem promete. O que eu vejo, na minha turma e em mim, é gente que ficou mais firme, respirando melhor e menos escrava do próprio humor. Não é estudo clínico, é o que eu observo, e eu não vou chamar de comprovado o que eu só observo. Mas já é muita coisa.
Como isso entra na prática, sem virar caçador de experiência
Se você leu até aqui e quer a parte prática, ela é mais simples do que o assunto sugere:
1. Comece pela base, não pelo topo. Todo mundo quer meditar no terceiro olho. Mas o texto põe a energia dormindo lá embaixo, na base da coluna, por um motivo: é lá que se começa. Postura em pé, pés no chão, coluna longa.
2. Respiração antes de visualização. Cinco minutos observando o ar entrar e sair organizam mais a mente do que meia hora tentando enxergar um lótus colorido que você nunca viu.
3. Um centro por vez. Escolha um – o coração é um bom começo – e fique nele por semanas. Sentir a região, respirar ali, repetir a sílaba correspondente. Não é turismo pelos sete.
4. Estude junto. The Serpent Power está em domínio público e a Hatha Yoga Pradipika também, na tradução de Pancham Sinh, de 1915, que é a que eu uso aqui. Ler a fonte é diferente de ler alguém contando a fonte – e você já sabe que eu prefiro conhecer bem minhas fontes.
5. Tenha um professor. Texto antigo não responde a sua pergunta, e vídeo nenhum enxerga a sua coluna. E não é invenção minha: o verso seguinte ao da serpente (III.2) diz que a Kundalini desperta “pelo favor de um guru”. O texto antigo já botava o professor na conta. Pronta pra começar por um centro só?
Kundalini Shakti, portanto é um caminho. Uma disciplina voltada para o autoconhecimento e que trabalha de uma forma muito específica. Mas os resultado são impressionantes – só sabe quem faz!
Perguntas frequentes sobre chakras e Kundalini Yoga
Chakras existem no corpo físico?
Não como órgão. Os textos os descrevem como centros sutis, associados a regiões do corpo, e a própria linguagem deles é simbólica – pétalas, sílabas, deidades. Tratar como anatomia é forçar o texto a dizer o que ele não diz.
Kundalini Yoga é a mesma coisa que Hatha Yoga?
Não, mas os dois se cruzam bastante. A Hatha Yoga Pradipika trata da Kundalini no seu terceiro capítulo, e boa parte das técnicas é compartilhada. O que muda é a ênfase: um organiza a prática pelo corpo e pela respiração, o outro pelo despertar desse potencial.
De onde vem tudo isso que a gente lê sobre chakras?
Não, e isso quase ninguém conta: ele é o sexto patala (capítulo) de uma obra maior, o Shritattvachintamani, de Purnananda, composta no ano Shaka 1499, ou seja, 1577 da nossa era. O capítulo é que virou célebre sozinho, depois que Woodroffe o traduziu.
Dá pra praticar isso sozinha em casa?
Dá pra começar pela respiração e pela postura, que é o que a tradição também manda fazer primeiro. As técnicas mais fortes de retenção de ar e os fechamentos pedem acompanhamento – não por misticismo, por segurança mesmo.
Quanto tempo leva?
Não vou te vender prazo. O que a tradição diz sobre tempo, ela diz nos Yoga Sutras (I.14): a prática só fica firme quando é seguida por muito tempo, sem interrupção e com seriedade. É honesto e é chato – e é verdade.





