Por que os asanas do Yoga são chamados de… asanas?

Ali no intervalo entre uma postura do guerreiro e a do triângulo… você já se perguntou por que as posturas do yoga são chamadas de “asanas”? Essas posições que vemos nas aulas têm raízes profundas na antiga filosofia e prática do yoga. No entanto, apesar de que essa Tradição remonta há milhares e milhares de anos antes de Cristo, foi somente no séc. 5 a.C. que as primeiras palavras sobre os asanas foram registradas!
Vamos explorar o significado e a importância das asanas, de acordo com os ensinamentos dos Yoga Sutras de Patanjali e outras escrituras antigas.

Primeiras coisas primeiro: “os” asanas, ou “as” asanas?

A palavra “asana” é derivada do sânscrito, a língua antiga da Índia, e significa literalmente “assento”. De acordo com o contexto, no entanto, é aceitável a gente traduzir como “posição estável” ou “postura confortável”.
Com relação a essa questão do artigo, apesar de que no português não existe, no sânscrito há palavras masculinas, femininas e… neutras. E “asana” é uma delas! Quando a gente fala no português, portanto, podemos escolher qual artigo usar. Tanto “os” quanto “as” asanas está correto.

Na verdade, a grafia correta da palavra é “āsana” (ou आसन, no original). Esse tracinho em cima do “a” quer dizer que essa é uma vogal longa – o que muita gente confunde com um acento agudo e por isso ela sai com esse som de “ásana”. Não é a mesma coisa que alongar o som da vogal, mas para os nossos ouvidos acaba sendo.

Seja como for que você for falar ou escrever, no entanto, vale apontar que os asanas no yoga são muito mais do que simples exercícios físicos. Eles fazem parte de um sistema abrangente de práticas que visam a evolução do ser humano em todos os níveis: físico, mental, emocional e espiritual. Quanto à sua origem, ninguém sabe ao certo quando as pessoas começaram a praticar essas posturas na Índia, mas há muitas estátuas antigas recuperadas de escavações que mostram pessoas e deidades nas mais diversas posições. O que é certo é que há menções a elas em muitos textos importantes do Yoga e, por isso, podemos saber algo com bastante confiança, direto da fonte.

Asanas do Yoga nos Sutras de Patanjali:

Para entender a importância das asanas, é fundamental voltar-se para o Yoga Sutra de Patanjali, um dos textos mais influentes na filosofia do yoga. Logo no começo do seu trabalho mais célebre, Patanjali descreve o yoga como a “cessação das flutuações da mente” e isso deixa claro qual é o objetivo final do praticante, que é alcançar a autorrealização e a iluminação. Para atingir esse objetivo, o sábio descreve um caminho em oito passos para aqueles que desejam realizar essa jornada rumo ao seu próprio Eu e as asanas desempenham um papel crucial nesse processo.

No caminho do yoga delineado por Patanjali, conhecido como “ashtanga yoga” (os oito membros do yoga), as asanas são consideradas uma das etapas preliminares. Elas são projetadas para preparar o corpo físico e a mente para a meditação e a realização espiritual. Através da prática regular das asanas, desenvolvemos força, flexibilidade e equilíbrio no corpo, tornando-o um veículo mais adequado para a busca espiritual. Mais do que isso – através dessas práticas psicofísicas, os efeitos das emoções negativas são desfeitos e os bloqueios são liberados, facilitando as mudanças que o indivíduo precisa na busca da autorrealização. 

O Alinhamento com a Energia Sutil:

Além dos benefícios físicos, as asanas são concebidas para alinhar o praticante com a energia sutil do corpo, conhecida como “prana” ou “chi”. Através do alinhamento apropriado e da prática consciente das asanas, podemos liberar bloqueios de energia e promover um fluxo suave de prana, o que contribui para um maior equilíbrio e bem-estar. Além disso, nos textos da época do movimento conhecido como “Hatha Yoga”, lá pelo século XV d.C., estão descritos os efeitos das posturas e demais técnicas sobre o despertar da energia fundamental dormente na coluna vertebral, chamada de “kundalini”. Seu acordar e posterior movimento pelos chakras proporciona mudanças profundas tanto físicas quanto psíquicas no praticante, facilitando seu caminho em direção ao samadhi – estar frente a frente com sua própria natureza.

As Asanas como Metáfora:

As asanas também são frequentemente usadas hoje em dia como metáforas para ensinar princípios essenciais da filosofia do yoga. Por exemplo, a postura do “guerreiro” nos lembra da importância da força, da coragem e da determinação no caminho espiritual. O “cachorro olhando para baixo” nos ensina a manter a humildade e a aceitação.
Apesar de que não há registro antigo sobre isso, hoje sabemos que ao mudar nossa fisionomia e nossa postura, mudamos também nossas emoções e nosso estado de espírito. Isso é o mesmo que dizer que ao mantermos a coluna reta e o peito aberto, estamos rejeitando o estado de vitimismo e tristeza e entrando voluntariamente no estado de confiança e coragem. E funciona! Isso é cientificamente comprovado!

A prática regular das asanas no yoga promove o equilíbrio e a harmonia em todos os aspectos da vida. Assim como buscamos equilibrar nosso corpo em uma postura desafiadora, também aprendemos a equilibrar nossas emoções, nossos relacionamentos e nossa mente. Esse equilíbrio é fundamental para a busca da paz interior e da autorrealização.

Asanas na vida

Portanto, as asanas são muito mais do que simples exercícios físicos. Elas são uma parte vital do sistema do yoga, destinadas a preparar nosso corpo e mente para estados mais elevados de consciência e para a jornada em direção à autorrealização. À medida que praticamos as asanas com consciência e intenção, trazemos os ensinamentos profundos do yoga para nossa vida cotidiana, vivendo com mais equilíbrio, saúde e harmonia. Elas nos lembram que o yoga é uma jornada de transformação holística que abrange todos os aspectos da existência humana.

Portanto, da próxima vez que você estender seu tapete de yoga e entrar em uma postura, lembre-se de que está se envolvendo em uma prática ancestral que visa a elevação do corpo, da mente e da alma. As asanas são portas de entrada para um mundo de descoberta interior e autorrealização, e seu nome, “asanas”, reflete a estabilidade e a conexão profunda que podemos alcançar através dessa prática dedicada.

Leandro Casttelo Branco

Leandro Castello Branco, coordenador do Saraswati Studio de Yoga no Rio de Janeiro, vive o Yoga há mais de duas décadas. Morou seis meses na Índia em 2006 e desde então teve a oportunidade de viajar estudando vedanta, yoga e meditação com diversos mestres como Swami Dayananda Saraswati, S.S. o Dalai Lama e o mestre zen Thich Nhat Hanh. É autor do "Guia Prático para o Coração do Yoga", que chegou a ser um dos mais vendidos da Amazon/Kindle na categoria "Saúde e Família" e hoje já formou mais de 520 professores de Yoga. Em 2017 iniciou um trabalho online que já impactou centenas de milhares de pessoas em cursos, workshops e palestras.

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