Yoga: o que é? Uma jornada de sete mil anos

Olha que coisa – embora hoje se veja yoga em toda parte, cada vez menos as pessoas sabem sobre ele! Podemos dizer sem medo que existe um excesso de informação, e uma carência de sabedoria real sobre o assunto. Não que o ocidente não tenha feito que podia pra reduzir yoga a exercícios de alongamento e tônus, mas não é por causa disso que essa confusão acontece. Ocorre que Yoga é algo tão complexo e tão antigo, que a única forma de entendê-lo é olhando pra trás, em direção à origem, a bordo de um Delorean imaginário (entendedores entenderão!).
Aperte os cintos, Marty! Vamos decolar!

O Começo de Tudo

Nosso carrinho viajante do tempo está nos levando para a Índia antiga, há mais de 5.000 anos, numa parte que hoje pertence ao Paquistão. Imagine um mundo totalmente diferente do nosso, sem a agitação das cidades modernas, sem smartphones, sem a correria do dia a dia. Nesse cenário, nasce o yoga.

Naquela época, yoga não era só um conjunto de posturas físicas (asanas) que a gente vê hoje. Era uma forma de vida, um caminho espiritual para se conectar com o divino e entender o mundo ao redor. Os primeiros registros de práticas de yoga vêm de textos antigos chamados Vedas, que eram mais do que simples escrituras. Eram coleções de conhecimentos abrangentes, cobrindo desde rituais religiosos até filosofia, medicina e astrologia.

Esses textos, cheios de hinos, mantras e rituais, formavam a espinha dorsal da vida espiritual e social. Eram cantados em sânscrito, a língua sagrada da época, e transmitiam uma sabedoria que ia muito além das palavras. Eles ensinavam não apenas práticas religiosas, mas também como viver uma vida equilibrada e harmoniosa, respeitando o mundo natural e os ciclos da vida.

Os Vedas eram considerados tão sagrados que sua transmissão era feita de maneira oral por muito tempo, de mestre para discípulo, numa tradição que valorizava a memorização e a recitação perfeita. Essa tradição oral mantinha vivas as nuances e a riqueza dos ensinamentos, que eram mais do que meras palavras escritas; eram experiências vivas, transmitidas de coração para coração.

Dentro dos Vedas, encontramos os Upanishads, que começam a explorar as ideias que formariam a base do que conhecemos hoje como yoga. Esses textos dialogam sobre a natureza da realidade, o eu interior e a conexão com o cosmos. Eles propõem um caminho de autoconhecimento e iluminação que se tornaria fundamental para o desenvolvimento posterior do yoga.

 

Então… yoga, afinal, o que é?



Colocado de forma curta, o yoga são os mantras recebidos pelos Rishis, os sábios da Índia antiga, que buscavam compreender os mistérios do universo e a si mesmos. Eles eram os yogis originais, pioneiros na arte da introspecção e mestres na prática da meditação.

Esses sábios praticavam yoga não como uma forma de exercício, mas como um meio profundo de entender o universo e a própria essência da vida. Para eles, a verdade não era algo que se pudesse encontrar em livros (até porque não tinha livro nenhum nessa época!) ou ser ensinado por outros; era algo que cada um tinha que descobrir por si mesmo, através da experiência direta. Eles dedicavam suas vidas ao estudo, à meditação e a um estilo de vida que honrava o equilíbrio e a disciplina.

Os Rishis viviam em harmonia com a natureza, muitas vezes se retirando para florestas, cavernas ou às margens de rios para meditar e contemplar. Eles acreditavam que estar em contato direto com os elementos naturais facilitava a conexão com o divino e ajudava no processo de autoconhecimento. Eles observavam o céu estrelado, os ciclos da lua, o fluxo dos rios e viam nessas maravilhas naturais reflexos das verdades universais.

Esses sábios também praticavam austeridades (tapas) e seguiam rigorosas disciplinas espirituais, acreditando que a purificação do corpo e da mente era essencial para alcançar estados superiores de consciência. Eles desenvolveram técnicas de controle da respiração (pranayama) e posturas físicas (asanas) para ajudar nesse processo. No entanto, o foco principal estava sempre na meditação e na expansão da consciência.

Os ensinamentos dos Rishis eram transmitidos oralmente, de mestre para discípulo, em uma tradição que valorizava a experiência vivida e a sabedoria prática. Eles usavam parábolas, histórias e metáforas para transmitir seus conhecimentos, tornando os ensinamentos mais acessíveis e memoráveis.

O legado desses sábios yogis é imenso. Eles estabeleceram as bases do que viria a ser o yoga clássico, influenciando inúmeras gerações e culturas. Seus ensinamentos ainda ressoam hoje, lembrando-nos da importância da introspecção, da conexão com a natureza e do cultivo da paz interior.

Yoga Sutras – parada inescapável

Imagine, por um momento, que agora nosso Delorean aterrissa milhares de anos no futuro, mais precisamente no século II a.C.!
Damos de cara com Patanjali, um sábio que provavelmente teria sido mais viral que qualquer influenciador moderno. Esse cara compilou 196 aforismos que são a essência da prática e filosofia do yoga. Cada aforismo é como um tweet antigo (pelo menos no tamanho), curto e profundo, cheio de sabedoria que desafia os séculos. Imagine se cada um desses aforismos fosse um livro por si só, e você tem uma biblioteca inteira em apenas um texto. É em grande parte por causa desse cara que o Yoga que você conhece é desprovido de religião  – é aqui que a prática se separa do que hoje conhecemos como “hinduísmo”.

O sistema do Ashtanga Yoga, ou os “oito membros do yoga”, apresentado por Patanjali, é como um mapa para a jornada da vida, com cada membro representando uma etapa essencial. Começamos com Yama e Niyama, que são como as regras de comportamento para uma vida harmoniosa. Asana e Pranayama seguem como capítulos sobre o bem-estar físico e energético. Pratyahara, Dharana e Dhyana nos guiam para dentro, em uma jornada introspectiva, como se estivéssemos explorando os corredores secretos da mente. E finalmente, Samadhi, é a grande revelação, o capítulo final onde descobrimos quem realmente somos.

Patanjali, com sua sabedoria intemporal, conseguiu encapsular o vasto oceano do conhecimento yogico em gotas de sabedoria. Seus sutras são como coordenadas em um mapa do tesouro, guiando os praticantes através das complexidades da mente e do espírito.

 

A Era Moderna e o Legado de T. Krishnamacharya

 

Nosso carrinho do futuro está já ficando sem plutônio, mas dá tempo ainda pra uma parada importante – à medida que avançamos para os séculos 19 e 20, entramos na era dourada do yoga, e um nome brilha intensamente nesse cenário: Tirumalai Krishnamacharya. Este grande yogi não apenas reacendeu a chama do yoga na Índia, mas também lançou as sementes para sua expansão global.

Krishnamacharya, muitas vezes chamado de “pai do yoga moderno”, foi uma figura revolucionária. Ele tinha uma compreensão profunda tanto dos antigos textos sânscritos quanto das necessidades das pessoas de sua época. Em um tempo em que o yoga estava em declínio na Índia, ele reviveu e reinventou a prática, tornando-a acessível e relevante para as pessoas do século 20.

Um dos feitos mais notáveis de Krishnamacharya foi sua habilidade em adaptar a prática do yoga para atender às necessidades individuais. Ele acreditava que “o yoga deve se adaptar ao indivíduo, e não o indivíduo ao yoga.” Essa abordagem personalizada era revolucionária e formou a base do que hoje conhecemos como Vinyasa Yoga (e não é esse que você tá pensando, cheio de saudação ao sol!).

Além disso, Krishnamacharya era um mestre na sincronização da respiração com os movimentos, um aspecto que se tornou um pilar central no yoga moderno. Ele enfatizava que a respiração era a chave para conectar a mente e o corpo, e essa visão transformou a prática de asanas em uma experiência meditativa e fluida (aqui, sim, tá o Vinyasa que você pensou!)

Sob sua orientação, emergiram alguns dos mais influentes professores de yoga do século 20, incluindo B.K.S. Iyengar, K. Pattabhi Jois e seu próprio filho T.K.V. Desikachar. Cada um deles continuou a evoluir e a disseminar diferentes estilos de yoga, influenciando incontáveis praticantes ao redor do mundo.

O impacto de Krishnamacharya no yoga moderno vai além das posturas e técnicas. Ele reacendeu o interesse pela prática como um todo, abrindo caminho para a popularização do yoga no Ocidente. Graças ao seu legado, o yoga transformou-se em um fenômeno global, encontrando um lugar especial na vida moderna, não apenas como uma forma de exercício físico, mas como um caminho para o bem-estar integral, a saúde mental e a espiritualidade.

 

E hoje? O que é o Yoga?

 

O Delorean rateou, tossiu, mas nos trouxe de volta ao século 21!
Hoje, após tantos milênios, o Yoga sobrevive firme e forte, mas… um pouco de sua essência se perdeu. As pessoas vêem as posturas como formas de culto ao corpo, a meditação como um meio de reduzir estresse e olham com desconfiança os mantras.
Mas, nem tudo está perdido!
Se você entendeu que yoga é um caminho em direção a si mesmo, à sua verdadeira natureza, dá pra fazer tudo e ainda manter o foco no lugar correto! Yoga é um estilo de vida, não uma religião, é a própria vida em movimento, na prática, não uma filosofia.
Escolha o meio que, para você, faz sentido isso se manifestar e seja feliz!

Acompanhe aqui em vídeo a explicação!!

ou assista direto pelo canal do youtube!! https://youtu.be/_Au6AxJKGf0?si=XCKZu-p494Q8puzQ

Leandro Casttelo Branco

Leandro Castello Branco, coordenador do Saraswati Studio de Yoga no Rio de Janeiro, vive o Yoga há mais de duas décadas. Morou seis meses na Índia em 2006 e desde então teve a oportunidade de viajar estudando vedanta, yoga e meditação com diversos mestres como Swami Dayananda Saraswati, S.S. o Dalai Lama e o mestre zen Thich Nhat Hanh. É autor do "Guia Prático para o Coração do Yoga", que chegou a ser um dos mais vendidos da Amazon/Kindle na categoria "Saúde e Família" e hoje já formou mais de 520 professores de Yoga. Em 2017 iniciou um trabalho online que já impactou centenas de milhares de pessoas em cursos, workshops e palestras.

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